terça-feira, 15 de abril de 2014

Preço, Valor e Reflexividade.


O recente manifesto sobre a reestruturação da dívida levantou um conjunto de questões quer do foro político, quer do foro económico. Será a dívida sustentável? Terá de ser inevitavelmente reestruturada? Os defensores da reestruturação focam-se no stock acumulado de dívida a na pesada fatura de juros; os detratores da reestruturação focam-se na prioridade para as boas contas e para a geração de saldos primários positivos. Uns e outros concordam que uma das variáveis essenciais para responder à questão da sustentabilidade é a taxa de juro, ou, mais propriamente, duas taxas de juro: a taxa de juro média das emissões vivas e a taxa de juro média de refinanciamento do stock de dívida. 

Reflexividade

A taxa de juro média de refinanciamento da dívida é uma variável com características especiais. Por um lado, é o reflexo das políticas orçamentais, isto é, representa o prémio por boas práticas (taxas baixas) e o castigo por más práticas (taxas altas). Por outro lado, com um stock de dívida tão elevado (acima de 100% do PIB e com tendência crescente), a taxa de juro interage fortemente com o próprio orçamento, isto é, uma taxa de juro alta não é só o castigo, mas também um fator que pode ditar a insustentabilidade matemática da dívida. Em sentido inverso, uma taxa de juro baixa é não só o prémio, mas também um fator que pode tornar a dívida sustentável.
Devido a este mecanismo de reflexividade, muito habitual nos mercados financeiros, é possível dizer hoje que a dívida portuguesa tem mais probabilidades de ser sustentável do que há três anos atrás. Uma abordagem clássica da interação entre preço e valor tiraria outro tipo de conclusões sobre as taxas de juro, do tipo: “se as taxas já estavam ridiculamente baixas face aos fundamentos, agora ainda estão ridiculamente mais baixas.” Esta abordagem clássica ignora o processo reflexivo. Peca de um erro conceptual, embora seja possível integrar a lógica de âncora do “value investing” com os “espíritos animais” da reflexividade.

Enviesamentos e Agências de rating

O mercado está organizado de uma forma que acentua certos enviesamentos. Vejamos o papel das agências de rating: estas agências atuam tipicamente após o grande movimento, acentuando-o sobremaneira. Foi assim quando a dívida pública portuguesa foi classificada de lixo e será assim se voltar a ser classificada como dívida de qualidade. As agências de rating não são observadores normais. As suas notações são linhas orientadoras ou obrigatórias no modus operandi dos fundos que compram dívida soberana. Se as agências confirmarem o que mercado já está a dizer, abre-se a porta outrora fechada, as taxas de juro descem ainda mais, e a dívida portuguesa poderá tornar-se sustentável. Pelo menos até ao próximo teste/crise. 


Conclusão

O mecanismo reflexivo não é uma espécie de varinha de condão que resolve ou destrói tudo. Ele interage com os fundamentos ou com a perceção dos fundamentos, mas quando a perceção se afasta da realidade há um teste (uma espécie de máquina da verdade). Sem boas contas e sem uma redução significativa do stock de dívida, Portugal será vulnerável ao teste da verdade. Mais cedo ou mais tarde.



Bons Investimentos! 

sexta-feira, 28 de março de 2014

STOP


Não há ordem de bolsa mais vilipendiada do que a ordem stop. 

Ponto prévio: uma ordem stop é uma ordem que é ativada quando o preço stop é atingido. O preço stop é sempre pior do que o atual: uma stop de compra é ativada acima do atual preço de mercado; já uma stop de venda é ativada abaixo do atual preço de mercado. 

Quando faço esta descrição simples surge sempre a pergunta:

- Porque devo comprar acima do preço de mercado e vender abaixo do preço de mercado?

- Ora, porque posso já ter decidido comprar ou vender e apenas estou à espera de uma confirmação do mercado para executar essa compra ou venda. Uma confirmação que passa necessariamente pela verificação de uma condição de subida para comprar ou de descida para vender – respondo eu.

Mesmo anuindo, a maioria não se rende - Porque devo esperar a confirmação, quando posso comprar agora mais baixo? – insistem.

- Porque não temos a certeza que vai subir. Se subir compramos de facto pior, mas se não subir evitamos uma compra precipitada – replico.

Já tenho mais adeptos para o lado das ordens stop, mas ainda há muita resistência…

 - Porque devo colocar uma ordem no mercado quando posso esperar visualmente e executá-la quando as condições se verificarem?

A esta pergunta não tenho uma resposta definitiva porque tudo dependerá do método e do estilo do gestor. O que sei é que num ambiente de risco, a stop representa o travão necessário para auxiliar uma boa performance.


No trading especulativo e na gestão de carteiras em geral, quem não entender a necessidade do uso de stops (efetivas ou mentais) ou, por outras palavras, quem não souber assumir perdas com naturalidade, acabará por, mais cedo ou mais tarde, sofrer graves dissabores.

O modus operandi funciona mais ou menos assim:

O trader anti-stop gosta de ter razão. Por isso, geralmente não compra após uma grande subida, preferindo refugiar-se no conforto mental de comprar em baixa e vender em alta. Ele sabe que “apanhar uma faca a cair” é perigoso e que nessas circunstâncias a colocação de uma stop é mais uma ferramenta de jogo do que de gestão do risco. Portanto, não coloca stop. Se correr mal, começam as autojustificações, as conspirações, os culpados externos. Sim, todos são culpados, menos ele – o trader anti-stop.

Se conjugarmos esta atitude com a presença da alavancagem, temos o cocktail certo para a desgraça. A verdade é que a culpa não é do mercado, nem da stop, nem da alavancagem. A culpa é dele.

A colocação de stops é quase uma arte. 
Não querendo entrar em pormenores entendo que há algumas ideias a reter e que advêm da experiência e observação:

- não colocar stops muito próximas do preço de mercado;

- procurar níveis naturais;

- ajustar as stops numa base contínua tendo em conta a evolução do mercado;

- ter em atenção os níveis de liquidez e o tamanho da ordem stop, assim como os momentos de abertura do mercado.

- justificar bem por que razão a stop é mental e não real.


Bons Investimentos!

quarta-feira, 3 de julho de 2013

GASPORTAS


GASPORTAS
Por Alexandre Mota

O efeito borboleta é uma das bases da teoria do caos a qual representa uma abordagem fascinante para explicar uma série de fenómenos físicos e humanos, entre os quais se inclui o comportamento dos mercados financeiros. Num mundo complexo, interligado e globalizado, o efeito borboleta diz que “o bater de asas de uma borboleta na China, pode resultar num fenómeno de larga escala no outro lado do mundo”, ou seja, o equilíbrio do ecossistema é instável, o catalisador é imprevisível e as consequências podem ser de larga escala (nota: peço desculpa aos puristas por simplificar tanto uma teoria tão elegante)

Gaspar bateu as asas e Portas idem. A nossa borboleta (a “GASPORTAS”) pode muito bem ser o catalisador de algo bem mais grave à escala mundial. O que se segue não é um exercício de previsão, mas apenas uma hipótese. Vejamos:

Vivemos num mundo atolado e viciado em dívida. Alguns países periféricos (como Portugal) são forçados ao empobrecimento para as pagar, mas os gigantes, como os EUA, Japão (e Alemanha embora em menor escala) têm um problema da mesma dimensão relativa (ou pior como é o caso do Japão) e ainda não o fizeram. Os bancos centrais, os governos e os bancos, empurram o problema para a frente recorrendo a todo o arsenal disponível, destacando-se a impressão monetária. Com as taxas de juro baixas, a poupança não é restaurada e o dinheiro flui para investimentos em dívida de toda a natureza, numa busca ilusória de rendimento que descura a devolução do principal. Recentemente a FED deu sinais de que quer temperar este status quo, esta dependência do “Money printing”. Os yields subiram.

Portugal era o aluno aplicado que obteve todos os elogios pelo cumprimento das exigências dos nossos credores. “Nós não somos a Grécia” clamaram os nossos governantes.

Hoje, após este bater de asas num sistema tão instável, num sistema que já preparou a chamada de outros credores para pagar os resgates, o desencadear de acontecimentos é imprevisível.

Mas pode, sem dúvida que pode, resultar num tufão caótico de larga escala.  

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Os Cisnes Negros de 2013

Por Alexandre Mota


Os Cisnes Negros de 2013

O fim do ano é sinónimo de balanço. Ao recordar o ano que agora finda, as barreiras macro que o mercado teve de enfrentar (designadamente a crise das dívidas e mais recentemente a ameaça americana do “fiscal cliff”) e a forma limpa como as ultrapassou, não deixamos de concluir que nos aproximamos de um ponto de perigosíssima complacência. Ao passar os olhos pelos “Outlooks 2013” o consenso aponta para uma subida do S&P em torno de 10% e ainda “procuro” analistas que prevejam uma queda do mercado.

Mas que contexto tão “benigno” é este?

Convém recordar que, no mundo desenvolvido como um todo, vivemos a pior situação em termos de dívida pública desde a segunda guerra mundial. O problema não é só europeu, mas também americano e japonês. Durante algum tempo, as apostas centraram-se no elo europeu, mas é possível que a corda parta por outro lado. É evidente que existe outra visão: a visão de que a corda não vai partir e que a dívida será paga através de expansão monetária. Como principais atores desta visão temos os principais bancos centrais que, com as sucessivas operações de expansão monetária, transformam o mercado numa espécie de macaco amestrado com o radar no próximo QE, Twist, LTRO, etc. Pior que isso, a intervenção dos Bancos Centrais que já passou há muito a imoralidade de subsidiar os bancos, representa hoje a ÚNICA razão que sustenta a subida dos mercados acionistas. Não fora esta intervenção e o desenrolar do purgativo processo de ajustamento empurraria os índices acionistas para sul.

Como disse o ex Ceo do Citigroup: “Enquanto a música tocar, devemos dançar…”. Isso não impede que escutemos com atenção a música…. Por exemplo, yields cada vez mais baixos sobre dívidas de estados ou empresas insolventes; crescente pressão social e conflito entre gerações; repressão fiscal e manipulação monetária.

Neste pano de fundo atrevemo-nos a considerar o óbvio: 2013 será provavelmente um ano de grandes sobressaltos; quedas das bolsas e grande agitação no mercado cambial. Os bancos centrais procurarão corrigir com a receita expansionista do costume, mas as munições serão cada vez mais fracas.

É neste contexto que devemos saber ter uma estratégia equilibrada, mas, acima de tudo, devemos recordar que a o sucesso não é ter razão, nem agitar ideias como grandes convicções futuras. O sucesso nos mercados são resultados.  

 Bons Investimentos!