terça-feira, 21 de agosto de 2012

Os 40 mandamentos para gerir uma carteira - Parte 1

Por Alexandre Mota


No seu mais recente livro, “Hedge Fund Market Wizards”, Jack Schwager repete a fórmula dos anteriores bestsellers, Market wizards e The New Market wizards, conduzindo um conjunto de entrevistas a gestores de sucesso, as quais nos levam ao âmago das estratégias vencedoras. No final do livro, o autor sentencia quarenta lições a aprender ou recordar, ao dispor de quem quiser refletir sobre as mesmas e, por fim, percebe-las. São estes “quarenta mandamentos” que começarei a dissecar em leves lotes de cinco.

Não é uniforme a terminologia dos mercados para investidor e especulador/trader. O mais usual é classificar o investidor como alguém que faz investimentos no longo prazo aproveitando as discrepâncias entre preço e valor. Já o trader é mais conotado com táticas especulativas de curto prazo. Na classificação de J. Schwager, o trader distingue-se do investidor pela abrangência de instrumentos e táticas, quer de curto quer de médio/longo prazo, destacando-se a possibilidade de ter posições curtas. Com a evolução dos mercados financeiros, os dois conceitos misturaram-se sendo usual vermos investidores a introduzir componentes especulativas nas suas carteiras, assim como traders a recorrer ao “value investing” em determinados momentos do mercado. É esta mistura complexa que nos interessa abordar, sendo portanto despiciendo chamar a um negócio um “trade” ou um “investimento”. Assumamos que é sempre um “trade” e que a atividade se chama “trading”. Investimento é assim um caso particular do “trading” e o investidor é apenas um caso particular da classe dos especuladores.  



Lições (5/40)


1.       Não há Santo Graal no Trading

Muitos traders acreditam que existe uma única solução para o enigma do mercado. Não só isso não é verdade como as próprias soluções existentes estão sempre a mudar.

2.       Encontre um método que vá de encontro à sua personalidade

Um método que seja perfeito para um trader pode ser desastroso para outro. Um trader impulsivo dificilmente coexistirá com ideias de longo prazo. Um trader calmo dificilmente aguentará os ziguezagues do day trade.
  
3.       Mantenha-se na sua zona de conforto

Se a posição for demasiado grande, o risco é maior, o que pode levar a saídas precipitadas. O gestor Vidich avisa: “Limite o tamanho da tua posição para que o medo não seja o sentimento prevalecente ao julgamento das entradas e saídas”
4.       Flexibilidade é uma qualidade essencial ao sucesso no trading

Traders talentosos não só liquidam posições a perder como também revertem a sua posição, se acreditam que cometeram um erro de avaliação
5.       Adapte-se

Os mercados mudam. Estratégias que resultaram podem começar a deteriorar-se. Bons traders são vigilantes quanto à possibilidade de deterioração da metodologia e estão em constante adaptação.

Envie o seu comentário para alexandre.mota@goldenbroker.com


Bons investimentos!

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Super Mário

Por Alexandre Mota


Na quinta-feira, dia 26 de Julho, o presidente do BCE, Mario Draghi interveio verbalmente. Quando se adivinhava mais uma sessão em que os yields da dívida espanhola testariam novos máximos, Draghi afirmou que tudo faria para assegurar a sobrevivência do euro e acrescentou "acreditem que tal será suficiente". Portanto, traçou uma linha na areia.

Inicialmente os mercados reagiram em alta, mas, como se sabe, o diabo está nos detalhes e nesta matéria é provável que estas palavras não sejam mais do que uma tentativa de ganhar tempo. Se não houver atos concretos, o mercado acabará por testar o BCE e obrigar a que este coloque dinheiro onde adiantou palavras.

Isto remete para a solução desta crise. A solução que estão a montar para resolver esta crise de dívida será muito provavelmente e maioritariamente a impressão de dinheiro. O único problema é que isso não resolve o problema, apenas o adia por mais alguns tempos. Quando a banca estiver toda ou quase toda nacionalizada, não houver mais margem para cobrar impostos e a dívida do estado estiver apenas nas mãos dos bancos centrais e restantes bancos zombies, então sim, nessa altura a dívida será cortada de outra forma: ou através de cortes brutais na despesas ou/e através de um incumprimento brutal e/ou uma desvalorização da moeda. Isto não é uma questão europeia. É uma questão americana, europeia, japonesa, em suma, do mundo desenvolvido.




quarta-feira, 25 de julho de 2012

KEYNES E OS AUSTRÍACOS

Por Alexandre Mota


Na atual conjuntura, os yields sobre a dívida pública espanhola são o principal indicador sobre o destino da zona euro.

A Grécia foi apenas o início de uma crise profunda e prolongada. Como já é admitindo à boca pequena, uma saída da Grécia da zona euro seria um mal necessário. Portugal e Irlanda são danos aparentemente manejáveis que estão por enquanto fora do radar. Espanha e Itália são outra realidade, outros números, outro nível de perdas. As medidas em Espanha não estão a resultar, o bailout à banca é insuficiente e as autonomias imploram por dinheiro que o estado central não tem. Há duas visões antagónicas sobre esta temática:

- A visão, que chamamos simplificadamente, pós Keynesiana, defende a intervenção das autoridades via banco central e governos centrais;

- A visão, que chamamos simplificadamente, liberal, defende a falência como forma de limpar os excessos, reconstruir a capacidade de poupança e crescer.

As opiniões são diversas no campo Keynesiano, mas o tronco comum passa por uma boa dose e impressão monetária (leia-se imprimir dinheiro para refinanciar as dívidas dos Estados diretamente ou via banca) e uma menor dosagem na austeridade que, de um modo geral, é reconhecida como necessária, embora deva ser mais diluída no tempo.

No campo liberal, a escola austríaca (a mais estruturada e filosoficamente sólida neste campo) defende que a atual crise resulta de uma insuficiência de poupança e excesso de dívida resultantes da intervenção das autoridades monetárias (que empurraram as taxas de juro para baixo) e dos governos que incentivaram atividades económicas não rentáveis. Para os austríacos o excesso de dívida resultou do excesso de Estado em sentido lato. Portanto, a solução é menos Estado e menos dívida.

Em comum, ambas as visões reconhecem que há um problema de dívida. Os Keynesianos defendem inflacionar para pagar aos credores; os liberais defendem deixar falir.

Onde se posicionam os nossos governantes?

Não sabemos ao certo, mas ao rever as atitudes dos governos, comissão europeia e do BCE ocorre-nos a audição de uma orquestra desafinada, sem maestro e, pior que isso, sem música de qualidade.

Ocorre-nos também pensar que os austríacos têm razão quando apontam o dedo ao excesso de Estado. Há razões para que tal tenha acontecido. O Estado social nas democracias ocidentais era a terceira via, a via democrática, o contraponto à União Soviética e a evolução para um estágio mais humano do capitalismo. Era, mas já não é. Evoluímos rapidamente para uma situação em que são mais os dependentes do Estado, do que os contribuintes. A solução tem passado por taxar mais os contribuintes, mantendo no essencial as despesas. No longo prazo, não vai resultar porque destrói o incentivo a criar riqueza. Esta é uma conclusão comum a Keynes e aos liberais e não um “quote” liberal. Aliás, estamos convictos que Keynes coraria de vergonha e dificilmente concordaria com o que se fez em nome das suas teorias.



Bons Investimentos!


quinta-feira, 12 de julho de 2012

Veículo Desgovernado

José Dias


Dezanove cimeiras desde que a crise soberana abateu-se sobre a periferia da Zona Euro e continuamos na mesma encruzilhada.

Talvez porque continuamos a viver na mesma negação da realidade.

Talvez porque não gostamos da verdade.

Talvez porque não temos coragem de tomar as medidas difíceis.

O euro foi-nos vendido como a resposta para a nossa falta de crescimento e falta de emprego.

Findo uma década, sem crescimento, estamos de novo à beira do abismo.

Três pacotes de ajuda em 30 anos e parece que ainda não aprendemos a lição.

Uma lição que é fácil de aprender: menos estado e mais economia de mercado.

Os nossos problemas resultam de empresas que se sobrepõe ao “rule of law”. Uma impunidade que choca e uma justiça que não funciona.

Há uma semana um novo pacote para recapitalizar os bancos espanhóis foi anunciado. Com toda a pompa e circunstância. Os investidores respiraram de alívio.

Uma união fiscal, uma união bancária seria finalmente a solução.

As praças europeias subiram, os yields baixaram ligeiramente e alguns políticos puderam dormir umas noites mais sossegados. O euro apreciou face ao dólar em reacção.

Mas menos de uma semana depois, o pesadelo e as insónias regressaram.

Os yields em Espanha ultrapassam o limite do 7% - a linha na areia que separa a solvência da insolvência.

Podem atingir o mercado com intervenções, mais poderes para os burocratas em Bruxelas, etc, mas o MERCADO acaba por se vingar. Felizmente, os especuladores estão alerta e estão a fiscalizar os políticos que afundaram as economias.

As tentativas de planeamento central são um fracasso mas vivemos na ilusão e numa realidade distorcida. Não queremos ver. Ignoramos a fome na Rússia soviética, na Coreia do Norte, o desastre económico em Cuba ou na Venezuela ou o buraco da Politica agrícola comum.



Um problema de excessivo endividamento não se resolve pedindo mais dinheiro emprestado. Um crescimento que se alimenta no endividamento nunca é sustentável.

Nem se resolve dando mais poder a meio dúzia de burocratas que julga ter poder para se substituir as decisões de milhões de agentes económicos.

Nem se resolve dando o planeamento das economias a bancos centrais que fixam a taxa de juro. Como quem fixa o preço do pão na Rússia Soviética.

Temos que viver dentro das nossas possibilidades. Por muito que isso custe. Mesmo que implique um ajustamento de 50% nas nossas economias.

Mesmo que implique um fim às ajudas dos estados a instituições financeiras insolventes.

Mesmo que implique responsabilizar criminalmente quem tomou más decisões.

O mercado não espera que estas decisões sejam tomadas. O mercado antecipa. Enquanto recusarmos assumir os nossos problemas e tomar as decisões difíceis, mais violento será o desfecho final.


José Dias
Golden Broker