quarta-feira, 11 de abril de 2012

História e Convicções


Enfrentar a incerteza nos mercados requer seguramente uma boa noção da história ou como disse Mark Twain: “History does not repeat itself, but rhyme”

Para além disso requer também uma boa dose de convicção (atenção que a maioria das vezes as convicções são apenas profissões de fé).

Sobre a questão histórica é difícil esquecer como arrancaram os anos de 2010 e 2011 e como se comportaram nos meses de Primavera/Verão subsequente (ver gráficos abaixo).

Sobre a questão das profissões de fé nos mercados, o que a história me ensinou pode resumir-se numa citação de Nietzsche: “Convictions are more dangerous enemies of truth than lies.”

 Índice S&P500 no início de 2010 e no resto do ano
(de início do ano até ao topo de Abril registou-se uma variação de +9,42%)


 
Índice S&P500 no início de 2011 e no resto do ano
(de início do ano até ao topo de Abril registou-se uma variação de +9,03%)



 
Índice S&P500 no início de 2012
(de início do ano até ao topo de Abril registou-se uma variação de +13,9%)



Ler mais:

“As bolsas vão cair” em 5 de Março de 2012
http://bgoldenbroker.blogspot.pt/2012/03/as-bolsas-cao-cair.html

“Seguros” em 6 de Março
http://bgoldenbroker.blogspot.pt/2012/03/seguros.html

“Bolsas em queda: os porquês” em 7 de Março
http://bgoldenbroker.blogspot.pt/2012/03/v-behaviorurldefaultvmlo.html

“Print+pause+print+pause” em 9 de Março
http://bgoldenbroker.blogspot.pt/2012/03/printpauseprintpause.html

“Déjà Vu” em 22 de março
http://bgoldenbroker.blogspot.pt/2012/03/deja-vu.html

terça-feira, 3 de abril de 2012

Gastão e Donald

Nota prévia: Esta história é fictícia, embora pontilhada com notas que remetem para a realidade.

Gastão recebeu uma doação do seu tio. Como se tratava de muito dinheiro, Gastão começou a pensar em rentabilizá-lo. Gastão pouco sabia de investimentos, mas tinha um “plano”: O primo de um amigo era um “especialista” e o próprio Gastão fez (dizia ele) o “trabalho de casa”. Todos os dias lia o “jornal económico”, especialmente a secção de rumores, previsões dos especialistas e preços alvo das empresas cotadas (com destaque para os “price targets da Silvergirl Sachs”). Para Gastão era suficiente. Os gráficos mostravam que o índice de NASCRASH estava no fundo (“nos mínimos históricos”). De facto, Gastão tinha investigado e verificado que o índice estava a cair 20% esse ano, 5% esse mês e estava nos mínimos dos últimos 10 anos. O “especialista” repetia “comprar baixo e vender alto”. Após esta sequência de conclusões brilhantes de parte a parte, Gastão comprou acções….

Nota: Ao contrário do que é mitificado, comprar só porque caiu muito não é uma atitude apenas acessível a alguns iluminados, mas representa, a maioria das vezes, apenas e só a vontade de ter razão. De facto, comprar baixo apenas por essa razão é apenas comprar melhor do que milhares que compraram antes. Por sua vez, comprar depois de uma subida significativa é comprar pior do que milhares de investidores que compraram antes, o que é claramente mais difícil de encaixar psicologicamente.
Ao longo do ano seguinte Gastão divertiu-se imenso com os mercados. Como “investidor avisado” tomou conhecimento de que os mercados não sobem sempre e por isso mesmo Gastão ia vendendo títulos que já estavam nos máximos para comprar aqueles que ainda não tinham subido. Por vezes, os títulos vendidos subiam muito mais, mas Gastão não desesperava. “Nunca ninguém faliu a realizar mais-valias e menos valias só o são efectivamente quando são realizadas” – pensava Gastão ao que o especialista assentia.
No final desse ano, Gastão estava a ganhar 50%. Por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher. Neste caso: a Noiva. “Gastão, vamos casar. Precisamos desse dinheiro para a casa. Vamos aproveitar a sorte”.
Gastão pensou: “Sorte!!!….Ela não sabe do meu segredo. Isto foi mérito e muito trabalho”.
Mas como a noiva de Gastão era muito convincente, ele anuiu. Todo o legado do tio foi investido na boda, na casa, nas obras e ainda sobrou para uma conta rendimento para acautelar a reforma. Contudo, Gastão estava desgostoso. Tinham-lhe tirado o brinquedo.
Passados 4 anos, Gastão encontrou o seu primo Donald que havia recebido o mesmo legado do Tio. Donald não tinha feito nenhum investimento de vulto e mantinha a mesma vida frugal de sempre. Gastão viu ali a sua oportunidade. Com a sua “experiência e conhecimentos”, Donald ganharia fortunas nos mercados financeiros.
Vê Donald, em apenas um ano ganhei 50%, comprei em baixa e vendi mesmo perto do topo. Agora o índice NASCRASH está ainda mais barato do que estava quando investi inicialmente (Gastão esquecera-se de dizer porque razão tinha vendido). ”Isto são factos Donald” - sentenciou.
Donald nem se atreveu a sugerir que poderia ter sido …Sorte.
A conselho de Gastão, Donald investiu nos mínimos do índice NASCRASH. Nas semanas que se seguiram à primeira compra, Donald via o valor de mercado do seu investimento cair brutalmente. “Boas notícias” disse Gastão. “O mercado está mais barato do que nunca”. Não era um eufemismo. Gastão estava convicto do que estava a dizer. E já se sabe, “o mercado é para os convictos”.
Nota: Sem dúvida que é preciso uma boa dose de convicção para vencer nos mercados. Muitos confundem convicção e coerência no método, com convicção numa posição num determinado título ou activo. Esses investidores são capazes de todas as construções e desconstruções para provar ao mundo que têm razão em deter aquela acção ou posição. Há um exemplo clássico: depois de uma queda, muitos gostam de comprar só porque caiu. Rebuscadamente autojustificam-se com os fundamentos (“esta acção está barata”). Mais tarde, se o trade correr bem, apressam-se a vender encaixando um ganho e proclamando: “comprei perto dos mínimos e já fiz a mais-valia”. Para trás deixam a justificação fundamental que deixou de servir. Por sua vez, se o título continuar a cair, a justificação fundamental ancora-o e autojustifica-o. Para além disso, ninguém o acusará de tonto por ter comprado perto dos mínimos. No longo prazo, onde a sorte conta pouco, este tipo de lógica só tem um único resultado possível: perder dinheiro

Donald nem se atreveu a contestar o primo especialista quando este lhe sugeriu reforçar a posição com um palavrão: “alavancagem”. Na verdade a única coisa que Gastão sabia sobre alavancagem era que se tratava de uma forma de ganhar mais dinheiro com o mesmo capital. Donald reforçou a sua posição, com alavancagem, e esperou que o mercado desse razão ao seu querido primo…

Mas não deu! Com o mercado a deteriorar-se cada vez mais, Donald começou a ter pensamentos mórbidos. O seu primo era o principal personagem dos seus sonhos que já envolviam facas e outros instrumentos de tortura. No momento em que perdeu a vergonha e se decidiu a “partir a loiça” enquanto restava alguma, o primo Gastão retorquiu: “Agora, nos mínimos? És louco? Não percebes nada disto. Nem pensar…”
“Mas o dinheiro é meu” – balbuciou Donald
Gastão não ouviu. “Sabes, vamos fazer como os especialistas. Vamos reduzir a exposição quando o índice NASCRASH corrigir em alta 10%.”
Donald duvidou, mas não contrariou. Ao fim e ao cabo uma recuperação de 10% em posições alavancadas (sim, ele já tinha descoberto o que era isso) já permitiria uma minimização dos estragos.Mas o mercado estava implacável e não corrigiu, em vez disso “foi directo para sul”. Após mais um revés, os primos almoçaram para fazer um ponto da situação.
“Irracional, está tudo louco” – rosnava Gastão.
Face ao silêncio ensurdecedor de Donald, Gastão, visivelmente humilhado com as quedas sucessivas do índice, enfim disse:
“Isto não é mercado, eles manipulam tudo (os tipos da Silvergirl sachs), assim não é justo…vamos sair desta selva…já”
Nota: quando o mercado nos derrota, é sempre mais fácil, para quem não sabe nem quer pensar como vencer no final, deitar a culpa a outros. Por exemplo: A FED, os hedge funds…a Goldman Sachs e demais vilões.
Donald, numa réstia de presença de espírito, retorquiu:
“Primo, mais tarde dizes-me quem são os “eles”, mas é bonito ouvir-te falar na primeira pessoa do plural quando dizes “vamos”… (pausa e olhar fulminante). Deixa-me dizer-te o seguinte: até agora segui à risca os conselhos de um egocêntrico que não percebeu que teve sorte há uns anos e que não tratou de perceber o que se estava a passar e onde se estava a meter. Mas sabes, querido primo, desta vez “VAMOS” fazer de outra maneira. Parti para esta odisseia com muito dinheiro e pouco conhecimento. Hoje tenho menos dinheiro, mas o suficiente para me manter vivo nos mercados. Quanto ao conhecimento, de facto aprendi que o mercado é um local fértil em oportunidades, mas não pelas razões que tu pensas ou que te disseram os teus amigos. Um local tão incerto e complexo e onde tantos não têm essa noção, é com certeza objecto de estudo prático. Passo a Passo é isso que vou fazer.




quarta-feira, 28 de março de 2012

Gerir uma carteira de investimentos – um processo de descoberta

Por Alexandre Mota

A gestão de uma carteira de investimentos é uma missão desafiante. Para o iniciado ou mesmo para uma boa parte dos veteranos experimentados, a dificuldade começa exactamente pela ilusão de facilidade. De facto, aparentemente é cada vez mais fácil investir. Bastam poucos milhares de euros, um PC, um acesso online e, por último, uma boa dose de presunção decorrente da ideia feita: “o mercado é feito para ganhar dinheiro, isto é, para eu ganhar dinheiro”.

Gerir a nossa carteira de investimentos é um negócio com poucas barreiras à entrada, tendência que se acentuou bastante nos últimos dez anos. Os potenciais investidores passaram a aceder desde casa, do café ou do escritório, aos acontecimentos nos vários mercados e às notícias que influenciam o seu portfolio. À distância de um clique, os “Pequenos Soros e Buffetts” compram ienes, ouro ou petróleo, colocam e cancelam ordens, num frenesim de trading global e democrático.

A diversão que isto provoca não é indiferente ao comum dos mortais. É avassalador o efeito positivo sobre o ego de um ser humano, potencial investidor, provocado pelo poder de aceder aos mercados globais e tomar decisões…ao segundo. É avassalador o poder que alguma sorte (sim, existe sorte e azar) provoca na mente desses potenciais investidores que, depois de meia dúzia de negócios bem sucedidos, sentem-se capazes de tudo e acima de qualquer coisa.

Com o tempo virá a inexorável purga. Nessa altura, o investidor sério terá inevitavelmente que investigar muito bem os seus objectivos de longo prazo (fazer crescer as poupanças ou divertir-se?) e as suas competências (que mercados conhece? o que aprendeu com a experiência? que background técnico tem? conhece os instrumentos financeiros disponíveis e o seu potencial e risco? Fez o trabalho de casa? Tem algum plano? Que tempo tem para esta actividade? Que meios dispõe? Que custos tem?).

O investidor sério não se engana a si próprio. Procura incessantemente potenciar os seus pontos fortes. Com o tempo, a diversão deixa de ser o objectivo subliminar, mas sim a consequência colateral de um processo de investimento com a marca do sucesso. Com o tempo, nenhum investidor terá possibilidade de ser bem sucedido sem o conhecimento profundo dos mercados em que actua, sem disciplina, sem capacidade de adaptação às mudanças e sem uma filosofia de actuação adequada à sua personalidade e objectivos de investimento.
Para poucos o processo demora meses, para alguns mais demorará anos, mas para a maioria dos investidores esse processo de investigação nunca chega, nunca é feito. Esses seguirão os métodos e a filosofia de sempre. Obterão, como é óbvio, os resultados de sempre.

Para quem está disposto à ruptura, o primeiro sinal virá inevitavelmente com o choque da realidade: a primeira perda, a primeira grande perda. O impacto da primeira grande perda é profilático, quase milagroso. Por isso só alguns a sentem na sua verdadeira dimensão. A sua verdadeira dimensão começa por ser avassaladora sobre o ego outrora inchado, mas após alguma limpeza interior, o investidor sério que emerge estará sem dúvida mais preparado. Pelo menos percebeu que o mercado não existe só para ganhar dinheiro, mas também para lhe tirar dinheiro. E mais: se for suficientemente sério consigo próprio, concluirá que se continuar a actuar como sempre, o mercado acabará por lhe tirar mais e mais dinheiro até ao limite da sua capacidade financeira e mental. 

Após o primeiro choque ou, se for preciso, vários pequenos choques distribuídos no tempo, o investidor sério consigo mesmo perceberá finalmente quão difícil o mercado é e passa à fase seguinte. Nessa altura a frase “o mercado é feito para ganhar dinheiro” deixa de fazer sentido. A verdade é que o mercado existe para transferir dinheiro e fá-lo enviando cheques dos perdedores para os ganhadores.

Portanto, fiquemos esclarecidos para que serve o mercado. É uma máquina de eliminação dos perdedores, premiando os ganhadores. A sua função económica é facilitar os negócios e encontrar rapidamente contrapartes na alocação dos recursos. Não serve, caro investidor, para nos entregar um cheque de mão beijada.
Para sair vencedor tem de definir os seus objectivos e trabalhar nas suas competências. Contra si terá o poder de um conjunto de ideias feitas, vícios e mitos. Contra si terá a aparente facilidade que o acesso global permite. Contra si terá o barulho gerado pela sorte efémera de alguns mas, acima de tudo, contra si terá a sua natureza humana. Se perceber tudo isto (e rápido), tem fortes probabilidades de sobreviver e algumas probabilidades de se tornar um investidor excepcional.  

quinta-feira, 22 de março de 2012

DÉJÀ VU


Por Alexandre Mota

Sinais preocupantes na economia real

O PMI do sector transformador chinês, relativo ao mês de Março, saiu a 48,1, o quinto mês consecutivo de queda.

O PMI do sector transformador alemão, relativo ao mês de Março, saiu a 48,1 (esperava-se 51), segundo mês consecutivo de queda.

Complacência nas bolsas

O índice VIX estabilizou em torno de 15% (valores de 2007).
O índice VDAX está abaixo de 20% (valores parecidos com 2007 e 2008).

Conclusão: A economia mundial dá sinais de recuo. A China dá sinais de recuo. O mercado acionista está complacente, o que é visível (para quem quer ver para além da espuma da onda bull) no prémio que se paga por seguros de cobertura de risco de baixa de preço que estão a níveis historicamente baixos.

Exemplo: Em meados de Outubro de 2011, quando o medo imperava, se eu quisesse comprar um seguro de protecção total (ou seja, preço de exercício igual ao preço de mercado da altura) que me protegesse de uma baixa de cotação do índice S&P500, durante os 6 meses seguintes, pagaria 9%.
Ontem, a preços de fecho do mercado, o mesmo seguro custaria 4,5%.

Concretizando: comprar uma opção de venda (put) do S&P500 com preço de exercício 1400 e vencimento em Setembro, custa 4,5%

Desde Outubro, o S&P500 subiu 15,70%.

Portanto, o mercado está complacente, a economia está a derrapar, os bancos centrais já imprimiram e podem entrar em modo “pause”….

A sensação de Déjà vu face a 2007, 2010 e 2011 é inegável.

É altura de comprar seguros que cubram quedas nos próximos 6 meses.

Saber mais: