segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Grécia – cenas dos próximos capítulos

por Alexandre Mota


Tudo indica que os ministros das finanças do Eurogrupo vão aprovar hoje a tranche de 130 biliões de euros para a Grécia. Os mercados financeiros estão a descontar isso mesmo, destacando-se a valorização dos índices europeus e a subida dos futuros sobre os índices americanos.
E depois o que virá?
A questão que se coloca de imediato é o que vai acontecer à tranche de 14,5 biliões que vence a 20 de Março. Colocam-se três cenários:

1)os legisladores gregos ameaçam com a imposição de cláusulas colectivas e a Grécia consegue um consenso de última hora;

2)As negociações arrastam-se mas o dinheiro é libertado à última da hora para pagar aos detentores destas obrigações;

3)As negociações arrastam-se e a Grécia entra em default nestas obrigações.

O mercado está focado nos cenários 1 e 2, mas o cenário 3) não é de excluir. As suas consequências seriam muito negativas e poderiam significar o reacender do rastilho do contágio.

Abaixo o blog do Financial Times sobre a crise da zona euro.

  
 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O Ouro é uma bolha especulativa?

por Alexandre Mota


Warren Buffett afirmou esta semana que o ouro é uma bolha especulativa. Eis os principais pontos do “Oráculo de Omaha”:
1) o metal amarelo não tem o potencial das terras agrícolas ou das empresas;
2) a rentabilidade do metal amarelo só se garante se um grupo continuar a comprar, convencido de que vai haver mais pessoas dispostas a investir;
3) as bolhas que se tornam suficientemente grandes acabam inevitavelmente por explodir.

Imagine uma economia imaginária em que a moeda de troca é peixe. O peixe tem um valor de uso, um valor de troca e ao mesmo tempo uma reserva de valor (supondo que há arcas frigoríficas). Claro que não existe peixe em quantidades ilimitadas. Visando a persecução do “bem comum” e os “superiores interesses da nação”, o Banco Central do Peixe monopoliza esta emissão monetária declarando: “este peixe é verdadeiro e tem curso forçado, valendo como única moeda de troca”. Como é óbvio, não há peixe que chegue para financiar o “bem comum”. Portanto, o que faz o Banco Central do Peixe? Falsifica o peixe (injectando-lhe farinha por exemplo). Mais ainda…falsifica todo o peixe necessário de forma a financiar “os estádios, as fontes a jorrar água, as parcerias, os subsídios, as reformas douradas e as outras, a ajuda aos bancos…etc, etc”. Tudo projectos de inegável valor económico. Claro que com um poder de emissão sem limites é natural que a taxa de juro seja manipulada por esta mega intervenção. E uma taxa de juro baixa agrada aos devedores que são o comum cidadão.
Que faz o investidor avisado? A resposta é óbvia…guarda peixe verdadeiro (peixe real). A lei de Gresham é exactamente isso. Má moeda expulsa boa moeda.
Voltemos à “bolha do ouro”. Enquanto vigorou o sistema de Bretton Woods (1944-1971), a moeda em circulação deveria ter como correspondência ouro no banco central. Para além disso, os EUA seriam a âncora do sistema e haveria uma taxa de câmbio fixa dólar/ouro, ou seja, ouro e usd eram a mesma coisa. Mas só em teoria conforme dá para perceber pela alegoria acima descrita. Os EUA enganaram os incautos emitindo “dólares falsos” para financiarem, entre outras coisas, essa grande cruzada gloriosa que foi a Guerra do Vietname. Finalmente, em 1971, Nixon deixou cair a máscara e terminou o sistema de Bretton Woods. Que terá acontecido ao Ouro depois disso? Claro que disparou. Desde a paridade fixa (35 usd por onça), o ouro atingiu 850 usd em Janeiro de 1980. Depois corrigiu para perto de 250 usd em Agosto de 1999. Nos últimos dez anos o ouro tem subido consistentemente, fixando um máximo a 1921 usd em Setembro de 2011.
O ouro subiu 4900% desde a queda do sistema de Bretton Woods. Está alto face a 1971. Mas estará caro?
Uma possível métrica é o chamado “preço sombra do ouro – (shadow gold price)”. Esta métrica divide a base monetária americana pelo stock oficial de ouro na posse dos EUA. A mesma fórmula foi usada para calcular a paridade ouro/usd que vigorou sob o sistema de Bretton Woods. O shadow gold price (“SGP”) é o preço teórico a que a FED teria de depreciar o USD no sentido de cobrir as responsabilidades de todo o sistema, transformando uma moeda baseada em dívida, numa moeda baseada num activo – neste caso o ouro). O “SGP” ronda os 10.000 usd por onça!!! Recordo…o ouro está a 1730 usd por onça.

Conclusão: Não vou discutir o ponto 1) das afirmações de Buffett. Provavelmente ele tem razão. Talvez sim, talvez não. Interessam-me mais os pontos 2 e 3. De facto, conforme mostram muitas métricas, entre as quais aquela que explicito neste post, a bolha está na dívida e no papel fiduciário. A subida do ouro é uma reacção (em curso) dos investidores. Um dia será uma bolha, mas não já.

Post já longo…mas voltarei seguramente a este tema até porque o ouro tem uma irmã bonita com uma bela tez cinzenta, destinada a brilhar nos próximos anos…a Prata.




quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O CISNE NEGRO



O livro de Nassim Taleb com o título deste post é de leitura obrigatória para quem tem como objectivo vencer nesta sedutora arena que são os mercados financeiros.

Em resumo, alguns dos ensinamentos que tirei do “cisne negro”:
- a história e os mercados avançam aos saltos não seguindo padrões de comportamento normais (referência à distribuição de probabilidades normal – curva em forma de sino com grande concentração de observações em torno da média e probabilidade quase nula de acontecimentos com desvio muito grande face à média);

- os actores da história e dos mercados tendem a subestimar eventos raros de grande impacto;

- a nossa mente humana gosta de normalizar e sente-se confortável com a regularidade ao invés de pensar na ruptura e na irregularidade.  

- muitos actores simplesmente não sabem o que estão a fazer…mas “tudo bem” desde que estejam ancorados numa tese, mesmo que a tese seja uma fraude.

Abaixo alguns dos meus extravagantes cisnes negros previstos para 2012/2013 (alguns são cinzentos…ou seja não são assim tão improváveis):

Israel ataca o Irão, o estreito de Ormuz é fechado e o Brent atinge os 200 usd por barril (actual 118);

O S&P atinge os 1800 pontos (actual 1350);

O Ouro ultrapassa os 2500 usd (actual 1730) e a prata ultrapassa os 80 usd (actual 33,50);

Os EUA entram em default técnico;

É possível ganhar dinheiro, com risco limitado, neste tipo de previsões extravagantes? Sim. É provável ganhar dinheiro? Não. É racional? Pode ser.

Com uma pequena fracção do património praticamente qualquer investidor pode construir o seu portfolio de cisnes negros, com um risco limitado e potencial explosivo.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Ctrl+P




“Pensamento duplo indica a capacidade de ter na mente, ao mesmo tempo, duas opiniões contraditórias e aceitar ambas.” - Oscar Wilde

A impressão monetária pelos Bancos centrais pode criar a ilusão que faz parte da solução para a crise da dívida soberana porque em parte mitiga alguns dos seus efeitos nefastos imediatos, mas não passa de um paliativo de curto prazo que não resolve, mas sim agrava, a situação de excesso de endividamento da economia mundial. 
No mês de Janeiro a reserva federal americana sinalizou taxas de juro baixas até ao final de 2014 o que representou um dilação de cerca de 18 meses face à promessa anterior. O mercado interpretou estes sinais da FED como o prelúdio de um novo programa de estímulos quantitativos - o QE3. Na nossa opinião esse programa será anunciado no 1º trimestre ou, o mais tardar, no 2º trimestre de 2012 e visará esmagar ainda mais a curva de rendimentos americana, com implicações importantes ao nível da alocação de activos, conforme veremos mais à frente.
O BCE está na iminência de aumentar as linhas do Long Term Refinancing Operations (o QE europeu por debaixo da mesa). Ao contrário do que dizem as fontes oficiais, o BCE já está a criar dinheiro do nada e vai criar ainda mais. Em Dezembro de 2011, o LTRO significou o empréstimo de quase 500 biliões de euros, a 3 anos, à taxa de cedência do BCE a qual está, como sabemos, muito perto do zero. Donde veio este cheque aos bancos? Do nada. Para onde vai? Em parte vai suprir as necessidades de liquidez dos bancos, outra parte será para comprar dívida soberana e a parte sobrante (se sobrar) para financiar a economia privada.  
O dinheiro do LTRO não vai chegar. Ainda este trimestre o BCE deverá aumentar as linhas de crédito e ...”faites vos jeux”: pelo menos 1 trilião será dinheiro criado do nada e já há quem diga…o melhor são 10 triliões para arrumar a questão.
Juntamente com o Banco do Japão, os principais bancos centrais ocidentais continuam a imprimir dinheiro para directa ou indirectamente se comprar dívida (pública e privada), insuflando esta enorme bolha. Na nossa opinião é improvável que o efeito riqueza (via confiança) que pretendem criar se sinta ao nível das camadas médias e baixas da população (o grosso dos consumidores), mais afectadas pela diminuição do seu património imobiliário líquido (em muitos casos negativo), por mais impostos e inflação. Isto remete para uma das questões actualmente mais discutidas por políticos, economistas e público em geral:
Imprimir dinheiro é parte da solução?
A resposta a esta questão tem de ser contextualizada historicamente. O dinheiro em si não representa mais riqueza. Isso só acontece se mais dinheiro a circular significar mais poder aquisitivo de bens e serviços. Portanto, as questões são:
1º questão: A pura criação de mais dinheiro do nada vai contribuir para mais riqueza real?
Numa situação profundamente depressiva em que o sector privado está armadilhado pela dívida excessiva e pela sobrecapacidade produtiva, um Estado com as contas equilibradas e, também por isso, com grande capacidade de financiamento, pode dar o grande empurrão inicial através de escolhas criteriosas, em conjugação com a expansão da massa monetária, liderada pelo banco central e generalizada pela banca comercial. Isto é uma das premissas de Keynes que inspiraram, por exemplo, o New Deal de Roosevelt. Numa linha complementar, o monetarismo de Milton Friedman defende que para evitar a destruição de riqueza, o banco central deverá emitir moeda, contrariando dessa forma o ciclo depressivo da contracção do crédito. Ben Bernanke, que estudou a fundo os anos da grande recessão, criticou a acção da FED da altura que, perante a falência dos bancos, fez, na perspectiva de Bernanke, exactamente o oposto do que deveria ser feito. A FED devia ter emitido moeda e fez o contrário. Isto define bem o consenso neoclássico que domina a teoria económica desde há décadas.

Ao grande consenso gerado pelo sucesso do Keynesianismo do pós-guerra até ao final dos anos 60, seguiu-se uma crise nos anos 70, e uma síntese (a síntese neoclássica que abarcou os contributos do Monetarismo e do Keynesianismo) que dominou a época da “grande moderação” entre os anos 80 e 2007, caracterizada pela congregação de mercados mais livres, globais e desregulados com a intervenção activa da política económica.
Em 2007/2008 morreu a “grande moderação”, mas as fórmulas neoclássicas mantiveram-se e com elas o ilusionismo.
Nota: em bom rigor a síntese neoclássica abarcou, entre outros, alguns contributos do Marginalismo que desenbocaram na microeconomia e os contributos do Keynesianismo na macroeconomia. O monetarismo foi em parte uma reacção ao declínio do Keynesianismo, contestando os estímulos orçamentais e privilegiando a política monetária activa. Em termos práticos, neo-keynesianos ou monetaristas lideraram os destinos da política económica nas últimas décadas. Para efeitos deste artigo, eles são o rosto do "mainstream" que domina a teoria económica, com nuances pouco significativas em termos práticos. Eles são os motores da impressora. 
Na minha opinião hoje em dia é perceptível que a pura impressão monetária tem menos condições para vingar, desde já por duas razões:
- Porque o mundo está super-endividado (sector público e sector privado)
- Porque pagar dívida com mais dívida pressupõe capacidade para a pagar no futuro e tendo em conta as exigências crescentes do Estado social, entre outras razões devido à evolução da pirâmide populacional, essa equação é impossível de executar se não for feita “qualquer coisa”. 
Por outras palavras, a teoria económica neoclássica ou é uma fraude, ou pelo menos aplica-se o eufemismo: “aquém da realidade”.
2ª questão: a criação de dinheiro do nada proteger-nos-á de uma destruição massiva de riqueza?
No contexto actual é muito improvável que assim seja. A criação de dinheiro apenas vai permitir tornar a economia ainda mais complexa, ajudar os bancos a capitalizarem-se, mas sem impacto visível nas empresas e famílias. Será apenas um adiamento e uma factura a pagar pelas gerações futuras. Será, isso sim, um cheque passado à economia financeira.

A impressão monetária criará uma ilusão de riqueza, poderá adiar uma crise de proporções gigantescas, mas não resolve os problemas económicos nem os desequilíbrios. Pelo contrário, agrava-os. O tremendo oximoro é este: quem beneficiará mais da impressão monetária são os mais ricos que aproveitarão esta distorção das autoridades políticas e monetárias para especularem com dinheiro barato. Estão criadas condições para mais bolhas especulativas.

Consequências nos mercados
Nos próximos “posts” explorarei as consequências do Ctrl+Print nos mercados. Os activos reais (pex: commodities e acções) serão aqueles que mais beneficiarão duma impressão monetária neoclássica. O contexto favorece um bull market nas acções e a continuação de um bull market nas commodities.
A alternativa infernal que não posso colocar de parte é um mega calote não da Grécia, não de Portugal, mas de países da dimensão de Itália, Japão ou EUA. Esse choque seria um terramoto monumental, a mãe de todos os “bear markets”.

Os dois vídeos abaixo são muito instrutivos sobre a questão da dívida e por isso recomendo o seu visionamento.

Se pretender comentar este post, agradeço que envie um e-mail para alexandre.mota@goldenbroker.com

Porque a crise europeia vai acabar mal

A crise da dívida explicada em 35 minutos