quinta-feira, 3 de julho de 2014

Para que serve o mercado, afinal? (uma visão do lado da gestão de carteiras)

A gestão de uma carteira de investimentos é uma missão desafiante. Para o iniciado ou mesmo para uma boa parte dos veteranos experimentados, a dificuldade começa exatamente na ilusão de facilidade. De facto, aparentemente é cada vez mais fácil investir. Bastam poucos milhares de euros, um PC, ...um acesso online e, por último, uma boa dose de presunção decorrente da ideia feita: “o mercado é feito para ganhar dinheiro, isto é, para eu ganhar dinheiro”. 
Gerir a nossa carteira de investimentos é um negócio com poucas barreiras à entrada, tendência que se acentuou bastante nos últimos dez anos. Os potenciais investidores passaram a aceder desde casa, do café ou do escritório aos acontecimentos nos vários mercados e às notícias que influenciam o seu portfolio. À distância de um clique, os “Pequenos Soros e Buffetts” compram ienes, ouro ou petróleo, colocam e cancelam ordens, num frenesim de trading global e democrático. 
A diversão que isto provoca não é indiferente ao comum dos mortais. É avassalador o efeito positivo sobre o ego de um ser humano, potencial investidor, provocado pelo poder de aceder aos mercados globais e tomar decisões…ao segundo. É avassalador o poder que alguma sorte (sim, existe sorte e azar) provoca na mente desses potenciais investidores, que, depois de meia dúzia de negócios bem sucedidos, sentem-se capazes de tudo e acima de qualquer coisa.
Com o tempo virá a inexorável purga. Nessa altura, o investidor sério terá inevitavelmente que investigar muito bem os seus objetivos de longo prazo (fazer crescer as poupanças ou divertir-se?) e as suas competências (que mercados conhece? o que aprendeu com a experiência? que background técnico tem? conhece os instrumentos financeiros disponíveis e o seu potencial e risco? Fez o trabalho de casa? Tem algum plano? Que tempo tem para esta atividade? Que meios dispõe? Que custos tem?).
O investidor sério não se engana a si próprio. Procura incessantemente potenciar os seus pontos fortes. Com o tempo, a diversão deixa de ser o objetivo subliminar, mas sim a consequência colateral de um processo de investimento com a marca do sucesso. Com o tempo, nenhum investidor terá possibilidade de ser bem sucedido sem o conhecimento profundo dos mercados em que atua, sem disciplina, sem capacidade de adaptação às mudanças e sem uma filosofia de atuação adequada à sua personalidade e objetivos de investimento. 
Para poucos o processo demora meses, para alguns mais demorará anos, mas para a maioria dos investidores esse processo de investigação nunca chega, nunca é feito. Esses seguirão os métodos e a filosofia de sempre. Obterão, como é óbvio, os resultados de sempre.
Para quem está disposto à rutura, o primeiro sinal virá inevitavelmente com o choque da realidade: a primeira perda, a primeira grande perda. O impacto da primeira grande perda é profilático, quase milagroso. Por isso só alguns a sentem na sua verdadeira dimensão. A sua verdadeira dimensão começa por ser avassaladora sobre o ego outrora inchado, mas, após alguma limpeza interior, o investidor sério que emerge estará sem dúvida mais preparado. Pelo menos percebeu que o mercado não existe só para ganhar dinheiro, mas também para lhe tirar dinheiro. E mais: se for suficientemente sério consigo próprio, concluirá que se continuar a atuar como sempre, o mercado acabará por lhe tirar mais e mais dinheiro até ao limite da sua capacidade financeira e mental. 
Após o primeiro choque ou, se for preciso, vários pequenos choques distribuídos no tempo, o investidor sério consigo mesmo perceberá finalmente quão difícil o mercado é, e passa à fase seguinte. Nessa altura, a frase “o mercado é feito para ganhar dinheiro” deixa de fazer sentido. A verdade é que o mercado existe para transferir dinheiro, e fá-lo enviando cheques dos perdedores para os ganhadores. 
Portanto, fiquemos esclarecidos para que serve o mercado. 
É uma máquina de eliminação dos perdedores, premiando os ganhadores. A sua função económica é facilitar os negócios e encontrar rapidamente contrapartes na alocação dos recursos. Não serve, caro investidor, para nos entregar um cheque de mão beijada. Para sair vencedor tem de definir os seus objetivos e trabalhar nas suas competências. Contra si terá o poder de um conjunto de ideias feitas, vícios e mitos. Contra si terá a aparente facilidade que o acesso global permite. Contra si terá o barulho gerado pela sorte efémera de alguns, mas, acima de tudo, contra si terá a sua natureza humana. Se perceber tudo isto (e rápido), tem fortes probabilidades de sobreviver e algumas probabilidades de se tornar um investidor excecional.
Bons Investimentos

sexta-feira, 27 de junho de 2014

A Dissonância Cognitiva nos Investimentos

Todas as pessoas têm crenças pessoais que compõem aquilo que somos como pessoa. Quer estas crenças tenham sido estabelecidas por experiências de vida, incorporadas na nossa psicologia desde o nascimento, elas moldam a forma como vemos o mundo.

Estas crenças centrais também podem levar a um viés extremo que seja difícil de quebrar. 

Muitas pessoas pegam-se a uma ideia ou a um potencial resultado final ao ponto de ignorarem qualquer evidência ou dado que lhes aparece à frente que contrarie as suas noções pré estabelecidas. 
Muitos investidores, como outro qualquer grupo, caem no erro das expetativas incorporadas. 

Muitas vezes existe uma crença muito forte numa ideia. Quando é apresentada uma nova vidência contra a crença estabelecida, esta evidência não é aceite. Aceitar a evidência cria um sentimento desconfortável designado por dissonância cognitiva. E torna-se tão importante proteger a crença inicial, que o investidor vai racionalizar, ignorar e mesmo negar qualquer coisa que não encaixa na sua crença. 

Muitos investidores estão tão apegados a um resultado esperado no mercado que são incapazes de ver outro resultado que possa acontecer. Racionalizaram o seu timing político, macroeconómico num estado de convicção tal que julgam ser inquebrável.

Estes estados levam muitas vezes a tomar posições contraditórias no mercado acionista, commodities, com a expetativa de que “o mercado está a fazer um topo” ou “o mercado está prestes a inverter”. 
Outro resultado da dissonância cognitiva é a paralisia pela análise. Muitas opiniões contraditórias criam indecisão, que leva à inação. Estar em liquidez por um período longo de tempo não permite alcançar os objetivos de investimento e vai criar ainda mais ansiedade se a tendência continuar a favorecer a criação de riqueza. No final do dia, quem decide tudo é o preço. 

O preço é a única coisa que interessa. 

Podemos deitar fora as opiniões, notícias importantes, confiança, sentimento, avaliações, relações económicas, ou qualquer outro indicador que diga que o mercado está num determinado sentido. O mercado não quer saber para onde eu ou qualquer outra pessoa acha que o mercado deve ir, e muitas vezes reage de forma completamente imprevisível. É por isso que temos de estar preparados para qualquer resultado final para se ser um investidor de sucesso.

Toda a gente, em determinados momentos do tempo errou nos esforços de ser bem-sucedido. Eu próprio admito que sou muito cauteloso quando o mercado está a subir e não sou suficientemente agressivo quando me são apresentadas oportunidades de compra quando o mercado faz ligeiras correções. É nessas oportunidades que nos interrogamos “ e se…”, fazendo vários cenários. Não há que ter vergonha de estar errado; apenas existe vergonha em estar errado quando todas as evidências apontam para o contrário do nosso posicionamento. 

Apresento abaixo algumas dicas para ultrapassar a dissonância cognitiva na sua carteira de investimentos:

1) Não se apaixone por nenhum investimento: não fique enamorado por qualquer ação ou outro ativo que veja que caiu o suficiente para se encontrar em ponto de compra ou manter em portfólio. Tente ser o mais objetivo possível quando olha para as suas posições para determinar se ainda merecem estar na sua carteira de investimentos.

2) Pare de tentar adivinhar máximos: todas as semanas vemos um novo analista e perito em mercados a dizer que o mercado acionista não pode subir mais e para as pessoas se prepararem para o “fim do mundo”. Sabe porquê? O medo vende! No entanto, o medo raramente lhe dá dinheiro a ganhar.

3) Crie uma Lista de Observação: tenha uma lista de títulos que considera adequados para a sua carteira de investimento a compare-os com as posições que detém em portfólio. Atualize as ideias numa base regular para se certificar de que está a captar novas oportunidades e a definir pontos de preços, onde irá implementar essas ideias. Recentemente comprei Prata para os meus clientes porque foi um título que estava na minha lista de observação que eu monitorava ativamente e a cumprir as metas de preço.

4) Faça uma gestão do risco com Stop-Loss: ao investir existem sempre quatro resultados: um grande ganho, um pequeno ganho, uma pequena perda e uma grande perda. Os três primeiros resultados são aceitáveis. No entanto, pode sempre evitar uma grande perda que possa fazer uma mossa grande na sua carteira de investimentos. Eu recomendo sempre definir um stop-loss para que seja sempre possível definir o risco, e delinear uma estratégia de saída da posição.

5) Mantenha o portfólio equilibrado: embora nem sempre possa ser possível ver os dois lados do mercado devido à dissonância cognitiva, deve sempre manter uma atitude equilibrada na construção do portfólio. Confiança e disciplina podem ser usados de forma efetiva para implementar novas ideias de investimento. No entanto, um excesso de ganância, medo ou convicção pode abalar de forma significativa a sua carteira. Embora não exista uma fórmula perfeita para estar no mercado, existem sempre passos disciplinados que pode fazer para melhorar o seu resultado.


Bons Investimentos!

João Carlos Pinto
Trader na Golden Broker

terça-feira, 3 de junho de 2014

Bons negócios, maus negócios.



Jack Schwager é conhecido pela publicação das suas entrevistas a traders e investidores de sucesso: “The market wizards”. No seu último “Hedge fund market wizards”, ele repete a fórmula e faz um resumo em jeito de lições sobre o mercado.

Uma das lições mais polémicas é: “Não confundir o conceito de negócio ganhador com o conceito de bom negócio.”

Numa primeira leitura esta lição parece absurda. De facto, ganhar é sempre bom e perder é sempre mau. Não será assim? Não. Claramente, não.

Vejamos a explicação de Schwager, que subscrevo na íntegra:

Um bom negócio pode perder dinheiro e um mau negócio pode ganhar dinheiro. Até os melhores processos de investimento perdem dinheiro durante uma certa percentagem de tempo. Não há forma de saber aprioristicamente qual o negócio específico que ganhará dinheiro. Desde que o negócio decorra de um processo com uma vantagem probabilística, o negócio é bom, ganhe ou perca, porque se forem feitos negócios similares múltiplas vezes, o processo resultará num lucro ao longo do tempo. Já um negócio iniciado sem processo, ou como mero jogo de casino, é sempre mau, ganhe ou perca, porque ao longo do tempo o processo é intrinsecamente perdedor.”

Mark Douglas, autor do bestseller – trading in the zone - sobre a psicologia dos investimentos, escreve no seu livro:

Para eliminar o risco emocional do trading é preciso neutralizar as expectativas quanto ao comportamento do mercado num dado momento ou situação….temos de estar dispostos a pensar a partir da perspetiva do mercado…que comunica connosco com base em probabilidades….Para pensar em termos de probabilidades, temos de criar uma atitude mental coerente com os princípios fundamentais desse ambiente. 

Essa atitude consiste em 5 verdades fundamentais:

1) Tudo pode acontecer

2) Para ganharmos dinheiro consistente não precisamos de saber o que vai acontecer a seguir;

3) Há uma distribuição aleatória entre ganhos e perdas e um conjunto de variáveis que definem uma oportunidade

4) Uma oportunidade é uma maior probabilidade de acontecer um acontecimento do que outro

5) Cada momento do mercado é único  
….”

Uma boa parte das estratégias ditas alternativas tem esta abordagem e atitude no seu ADN metodológico. Como consequência, o seu padrão de resultados foge à normalidade que tipicamente domina as estratégias clássicas (pex: ações e obrigações). Podemos afirmar que do lado clássico temos média, benchmarks e um padrão que tende para a igualdade e indiferenciação. Do outro lado - do lado alternativo - temos muita dispersão, retorno absoluto, padrões desiguais e diversidade. Consequentemente, a questão do processo de investimento é muito mais relevante para uma gestão alternativa, cujo gestor sabe que tem de apostar na diferenciação, ou invés do gestor clássico que tem um benchmark como guião.    


segunda-feira, 5 de maio de 2014

Qual o objetivo do seu investimento?


A maioria dos investidores responde a esta pergunta referindo que visa o crescimento ou preservação do seu capital, ou assegurar um rendimento fixo.

A resposta é simples e clara, remetendo para as preferências de risco do investidor: um investidor mais conservador abdica do potencial de crescimento em favor do rendimento e, principalmente, da preservação; um investidor mais agressivo opta pelo crescimento e alto rendimento. Ambas as escolhas são legítimas e remetem para objetivos muito concretos num determinado horizonte temporal.

Claro e cristalino? Na prática, não. De facto, os “avanços” teóricos ao nível da teoria do portfolio enraizaram a moda do benchmark na indústria de gestão de ativos. Numa primeira fase, tratava-se de benchmarks simples; hoje em dia, são benchmarks complexos e quase herméticos.

Esta situação desvirtua a essência do processo de investimento, tornando-o mais massificado, normalizado e potencialmente autodestrutivo. De facto, a definição de um benchmark é sempre uma arbitrariedade. Mesmo admitindo que o benchmark reflete as reais preferências do investidor, medir a performance final face ao benchmark, e não face a um objetivo absoluto, é equivalente a avaliar um gestor face a um caminho traçado, ignorando se esse caminho era o melhor e, consequentemente, desligando o processo do resultado final, que, no fundo, é o que todos pretendemos obter.

Imaginemos que queremos atravessar um rio. A maioria opta por uma ponte antiga. Esse é o benchmark das massas (o caminho rápido da ponte antiga). Alguns (poucos) focam-se no objetivo final e interrogam-se sobre se a ponte antiga aguentará “tantas ovelhas”. Esses vão de barco.

Se a ponte aguentar, é evidente que os “velhos do Restelo” vão ser ridiculizados. Nos que optaram pelo caminho da ponte há alguns conscientes, mas a maioria são elementos que não gostam de assumir responsabilidades, preferindo fazer o que todos fazem, ou seja, o que dita o benchmark. Ir pela ponte, portanto. Se a ponte cair, servirá de fraco consolo referir que foi o que todos os fizeram. Contudo, é o que todos dirão. Mesmo os conscientes.
Em linguagem do mercado, se acontecer uma situação do tipo 2008 ou pior, por muito que alguém diga o contrário, a análise da performance face ao caminho traçado (o benchmark) será esmagada pela dura realidade: o caminho estava errado. Não apenas um pouco errado; não apenas ligeiramente desfasado; mas sim, totalmente, estupidamente, factualmente errado.


Em conclusão, a inclusão de benchmark serve para termos uma referência relativa, mas a sublimação e abuso dessa técnica de medição de performance é prejudicial para o investidor e gestor, pois gera desresponsabilização. Para a indústria de gestão de ativos como um todo, o benchmarking cria uma distorção e um enviesamento em larga escala, que são potencialmente autodestrutivos. Recomendação: se usar, por favor não abusar.