sexta-feira, 11 de maio de 2012

A MÃO INVISÍVEL – Déjà Vu

Por Alexandre Mota


 “Ao procurar o seu próprio interesse, cada indivíduo promove frequentemente resultados mais efetivos para a sociedade do que se realmente tivesse essa intenção …..através de uma mão invisível promove um fim que não era parte da sua intenção.”
Adam Smith

Os excertos acima são a afirmação inequívoca do primado do indivíduo e a negação da sociedade planificada. A mão invisível é obviamente o mercado não planificado.
No século XXI há outras mãos invisíveis que são as principais responsáveis pelas oscilações de preços. Tudo planeado, tudo controlado, pelo menos para já.

O gráfico abaixo mostra o impacto no índice S&P 500 dos vários programas de estímulos quantitativos.




Este outro gráfico mostra que os balanços dos bancos centrais têm de ser expandidos a taxas de crescimento cada vez maiores só para manter os preços (neste caso das ações) protegidos de um colapso.
Conclusão/Pergunta:
Se não fosse a mão visível da FED+BCE..etc, a que preços estaria a transacionar a mão invisível, ou seja, onde estariam as ações e como, nestas condições, é possível ter convicções firmes no valor de uma empresa ou de um activo?

Alexandre Mota





segunda-feira, 7 de maio de 2012

Grécia e França – e depois das eleições

Por Alexandre Mota





A vitória da esquerda em França e a “Vitória de Pirro” da Nova democracia na Grécia adensam as dúvidas sobre a zona euro. As questões cruciais são estas:

- que tipo de coabitação terá o presidente Hollande com a chanceler Merkl não esquecendo que esta provavelmente também perderá as eleições no próximo ano?

- que tipo de compromissos a aliança Nova democracia / Pasok terão de fazer com os partidos anti euro?

São questões sem resposta imediata mas que apontam num sentido. Os ventos da austeridade impostos pelo eixo franco-alemão estão a mudar. Goste-se ou não é este o sinal dado pelas urnas.

Os mercados anteciparam estes eventos num típico movimento de “sell on rumour, re-buy on fact”, mas de agora em diante reagirão aos próximos movimentos políticos com mais nervosismo. A situação em França é menos confusa. Hollande faz parte do grande centro político e é um institucionalista e não um socialista radical. Para o mês que vem teremos eleições legislativas em França que podem ou não confirmar a viragem à esquerda. Já na Grécia, o facto do centro político não ter conseguido a maioria no parlamento suscita compromissos potencialmente fraturantes com a zona euro. As próximas semanas serão cruciais.

As indefinições políticas na zona euro têm coincidido com um conjunto de dados macroeconómicos que apontam no sentido de uma desaceleração económica. Pouco tempo passou desde os dois leilões LTRO e a economia real continua a agonizar sem crédito. Os mercados acionistas europeus não tardaram a refletir este ambiente e já registam perdas no ano de 2012 (a única exceção é a Alemanha).   

Sem mais estímulos, os mercados acionistas tenderão a derrapar. Depois subirão antecipando novos estímulos e voltarão a cair após a sua concretização. Com este círculo alimentam-se bolhas de preços em determinados segmentos do mercado, mantém-se os bancos acima da linha de água, mas não se resolve o problema económico. Pelo contrário, empurra-se a crise para a frente donde ela ressurgirá…mais grave.

Então se a austeridade excessiva não resulta e os estímulos ajudam a criar bolhas especulativas, parte da solução que tem de ser encarada será algum tipo de default…



quarta-feira, 11 de abril de 2012

História e Convicções


Enfrentar a incerteza nos mercados requer seguramente uma boa noção da história ou como disse Mark Twain: “History does not repeat itself, but rhyme”

Para além disso requer também uma boa dose de convicção (atenção que a maioria das vezes as convicções são apenas profissões de fé).

Sobre a questão histórica é difícil esquecer como arrancaram os anos de 2010 e 2011 e como se comportaram nos meses de Primavera/Verão subsequente (ver gráficos abaixo).

Sobre a questão das profissões de fé nos mercados, o que a história me ensinou pode resumir-se numa citação de Nietzsche: “Convictions are more dangerous enemies of truth than lies.”

 Índice S&P500 no início de 2010 e no resto do ano
(de início do ano até ao topo de Abril registou-se uma variação de +9,42%)


 
Índice S&P500 no início de 2011 e no resto do ano
(de início do ano até ao topo de Abril registou-se uma variação de +9,03%)



 
Índice S&P500 no início de 2012
(de início do ano até ao topo de Abril registou-se uma variação de +13,9%)



Ler mais:

“As bolsas vão cair” em 5 de Março de 2012
http://bgoldenbroker.blogspot.pt/2012/03/as-bolsas-cao-cair.html

“Seguros” em 6 de Março
http://bgoldenbroker.blogspot.pt/2012/03/seguros.html

“Bolsas em queda: os porquês” em 7 de Março
http://bgoldenbroker.blogspot.pt/2012/03/v-behaviorurldefaultvmlo.html

“Print+pause+print+pause” em 9 de Março
http://bgoldenbroker.blogspot.pt/2012/03/printpauseprintpause.html

“Déjà Vu” em 22 de março
http://bgoldenbroker.blogspot.pt/2012/03/deja-vu.html

terça-feira, 3 de abril de 2012

Gastão e Donald

Nota prévia: Esta história é fictícia, embora pontilhada com notas que remetem para a realidade.

Gastão recebeu uma doação do seu tio. Como se tratava de muito dinheiro, Gastão começou a pensar em rentabilizá-lo. Gastão pouco sabia de investimentos, mas tinha um “plano”: O primo de um amigo era um “especialista” e o próprio Gastão fez (dizia ele) o “trabalho de casa”. Todos os dias lia o “jornal económico”, especialmente a secção de rumores, previsões dos especialistas e preços alvo das empresas cotadas (com destaque para os “price targets da Silvergirl Sachs”). Para Gastão era suficiente. Os gráficos mostravam que o índice de NASCRASH estava no fundo (“nos mínimos históricos”). De facto, Gastão tinha investigado e verificado que o índice estava a cair 20% esse ano, 5% esse mês e estava nos mínimos dos últimos 10 anos. O “especialista” repetia “comprar baixo e vender alto”. Após esta sequência de conclusões brilhantes de parte a parte, Gastão comprou acções….

Nota: Ao contrário do que é mitificado, comprar só porque caiu muito não é uma atitude apenas acessível a alguns iluminados, mas representa, a maioria das vezes, apenas e só a vontade de ter razão. De facto, comprar baixo apenas por essa razão é apenas comprar melhor do que milhares que compraram antes. Por sua vez, comprar depois de uma subida significativa é comprar pior do que milhares de investidores que compraram antes, o que é claramente mais difícil de encaixar psicologicamente.
Ao longo do ano seguinte Gastão divertiu-se imenso com os mercados. Como “investidor avisado” tomou conhecimento de que os mercados não sobem sempre e por isso mesmo Gastão ia vendendo títulos que já estavam nos máximos para comprar aqueles que ainda não tinham subido. Por vezes, os títulos vendidos subiam muito mais, mas Gastão não desesperava. “Nunca ninguém faliu a realizar mais-valias e menos valias só o são efectivamente quando são realizadas” – pensava Gastão ao que o especialista assentia.
No final desse ano, Gastão estava a ganhar 50%. Por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher. Neste caso: a Noiva. “Gastão, vamos casar. Precisamos desse dinheiro para a casa. Vamos aproveitar a sorte”.
Gastão pensou: “Sorte!!!….Ela não sabe do meu segredo. Isto foi mérito e muito trabalho”.
Mas como a noiva de Gastão era muito convincente, ele anuiu. Todo o legado do tio foi investido na boda, na casa, nas obras e ainda sobrou para uma conta rendimento para acautelar a reforma. Contudo, Gastão estava desgostoso. Tinham-lhe tirado o brinquedo.
Passados 4 anos, Gastão encontrou o seu primo Donald que havia recebido o mesmo legado do Tio. Donald não tinha feito nenhum investimento de vulto e mantinha a mesma vida frugal de sempre. Gastão viu ali a sua oportunidade. Com a sua “experiência e conhecimentos”, Donald ganharia fortunas nos mercados financeiros.
Vê Donald, em apenas um ano ganhei 50%, comprei em baixa e vendi mesmo perto do topo. Agora o índice NASCRASH está ainda mais barato do que estava quando investi inicialmente (Gastão esquecera-se de dizer porque razão tinha vendido). ”Isto são factos Donald” - sentenciou.
Donald nem se atreveu a sugerir que poderia ter sido …Sorte.
A conselho de Gastão, Donald investiu nos mínimos do índice NASCRASH. Nas semanas que se seguiram à primeira compra, Donald via o valor de mercado do seu investimento cair brutalmente. “Boas notícias” disse Gastão. “O mercado está mais barato do que nunca”. Não era um eufemismo. Gastão estava convicto do que estava a dizer. E já se sabe, “o mercado é para os convictos”.
Nota: Sem dúvida que é preciso uma boa dose de convicção para vencer nos mercados. Muitos confundem convicção e coerência no método, com convicção numa posição num determinado título ou activo. Esses investidores são capazes de todas as construções e desconstruções para provar ao mundo que têm razão em deter aquela acção ou posição. Há um exemplo clássico: depois de uma queda, muitos gostam de comprar só porque caiu. Rebuscadamente autojustificam-se com os fundamentos (“esta acção está barata”). Mais tarde, se o trade correr bem, apressam-se a vender encaixando um ganho e proclamando: “comprei perto dos mínimos e já fiz a mais-valia”. Para trás deixam a justificação fundamental que deixou de servir. Por sua vez, se o título continuar a cair, a justificação fundamental ancora-o e autojustifica-o. Para além disso, ninguém o acusará de tonto por ter comprado perto dos mínimos. No longo prazo, onde a sorte conta pouco, este tipo de lógica só tem um único resultado possível: perder dinheiro

Donald nem se atreveu a contestar o primo especialista quando este lhe sugeriu reforçar a posição com um palavrão: “alavancagem”. Na verdade a única coisa que Gastão sabia sobre alavancagem era que se tratava de uma forma de ganhar mais dinheiro com o mesmo capital. Donald reforçou a sua posição, com alavancagem, e esperou que o mercado desse razão ao seu querido primo…

Mas não deu! Com o mercado a deteriorar-se cada vez mais, Donald começou a ter pensamentos mórbidos. O seu primo era o principal personagem dos seus sonhos que já envolviam facas e outros instrumentos de tortura. No momento em que perdeu a vergonha e se decidiu a “partir a loiça” enquanto restava alguma, o primo Gastão retorquiu: “Agora, nos mínimos? És louco? Não percebes nada disto. Nem pensar…”
“Mas o dinheiro é meu” – balbuciou Donald
Gastão não ouviu. “Sabes, vamos fazer como os especialistas. Vamos reduzir a exposição quando o índice NASCRASH corrigir em alta 10%.”
Donald duvidou, mas não contrariou. Ao fim e ao cabo uma recuperação de 10% em posições alavancadas (sim, ele já tinha descoberto o que era isso) já permitiria uma minimização dos estragos.Mas o mercado estava implacável e não corrigiu, em vez disso “foi directo para sul”. Após mais um revés, os primos almoçaram para fazer um ponto da situação.
“Irracional, está tudo louco” – rosnava Gastão.
Face ao silêncio ensurdecedor de Donald, Gastão, visivelmente humilhado com as quedas sucessivas do índice, enfim disse:
“Isto não é mercado, eles manipulam tudo (os tipos da Silvergirl sachs), assim não é justo…vamos sair desta selva…já”
Nota: quando o mercado nos derrota, é sempre mais fácil, para quem não sabe nem quer pensar como vencer no final, deitar a culpa a outros. Por exemplo: A FED, os hedge funds…a Goldman Sachs e demais vilões.
Donald, numa réstia de presença de espírito, retorquiu:
“Primo, mais tarde dizes-me quem são os “eles”, mas é bonito ouvir-te falar na primeira pessoa do plural quando dizes “vamos”… (pausa e olhar fulminante). Deixa-me dizer-te o seguinte: até agora segui à risca os conselhos de um egocêntrico que não percebeu que teve sorte há uns anos e que não tratou de perceber o que se estava a passar e onde se estava a meter. Mas sabes, querido primo, desta vez “VAMOS” fazer de outra maneira. Parti para esta odisseia com muito dinheiro e pouco conhecimento. Hoje tenho menos dinheiro, mas o suficiente para me manter vivo nos mercados. Quanto ao conhecimento, de facto aprendi que o mercado é um local fértil em oportunidades, mas não pelas razões que tu pensas ou que te disseram os teus amigos. Um local tão incerto e complexo e onde tantos não têm essa noção, é com certeza objecto de estudo prático. Passo a Passo é isso que vou fazer.